Capítulo 01
Em meio as árvores tortuosas da planície, banhadas por uma leve chuva de verão, um pequeno grupo se reunia frente à uma pequena abertura nas rochas. Para desbravadores comuns, tais entradas sinuosas só poderiam significar a toca de algum animal ou mesmo passagem para alguma mina íngreme. Mas, este grupo era composto apenas de combatentes, que arriscam suas vidas por pequenas riquezas. Conhecidos popularmente como aventureiros.
Um homem, com uma grande barba e que certamente alcançou a meia idade, se levantou e limpou as mãos cheias de musgo. O senhor parecia estar analisando o solo deste local, e ao seu sinal os outros voltaram seus olhos a ele.
- Os informantes da Guilda tinham razão, isto é uma Dungeon... E parece das grandes - Disse o homem.
Um jovem, encapuzado como todos os outros, cruzou os braços impaciente.
- Sendo assim, nada mais nos impede de começar nossa missão, correto?
- Também não vejo a hora de terminarmos isso. Permanecermos nesta chuva pode ser prejudicial para nós depois. - Concordou uma garota, seus olhos vagavam pelos arredores, a procura de qualquer inimigo inesperado.
- Sim, nossa missão é apenas de reconhecimento, logo, precisamos apenas vasculhar uma parte do local e relatarmos sobre oque virmos. E claro, qualquer espólio será de nosso direito. - Assentiu o homem barbado, já se preparando para entrar.
- Então p-podemos fugir a qualquer momento, não é?
A doce voz que soltou esta indagação pareceu interromper a chuva e irromper ódio de alguns companheiros, o velho tentou dizer algo em sua defesa mas os comentários em repulsa foram mais ágeis.
- Afinal, por que esta criança estúpida veio conosco? - Perguntou a garota com desdém.
O jovem apenas virou os olhos, ignorando a imagem da pequena criança tremendo na chuva.
- Parece que hoje em dia qualquer um pode entrar neste ramo... - Suspirou o garoto, incapaz de se dirigir a tal fraqueza.
Sem saber lidar com a situação, o velho homem olhou de maneira terna para a menina de cabelos brancos, pensando em pelo menos apaziguar este conflito. Afinal, em breve eles talvez estivessem juntos lutando pela vida.
- Não tenha medo pequena, nós estamos aqui para cumprir nossa missão e logo tudo isto terminará.
A criança apenas o olhava, confusa, como se fossem eles aqueles que não entenderam o real significado de suas palavras.
- Então fique tranquila, vamos terminar isto juntos!
De repente, uma nova voz surgiu do grupo.
- E se não terminarmos?
Os olhares rapidamente foram guiados até aquele homem, cujo rosto era coberto por um elmo negro, com pequenas lentes brancas no local dos olhos e uma protuberância similar a um pequeno bico de corvo. Apesar de sua aparência curiosa, o real motivo de surpresa de seus companheiros não era esse.
- Este elmo... Você é aquele azarado dos rumores? - Interrogou a garota boquiaberta.
O jovem garoto pareceu rir, não para fazer pouco caso e sim de sincero contentamento em estar próximo do dito azarado das lendas.
- Mal posso acreditar, que de tantas pessoas, eu caí justo numa missão com você Corvinal, O Rei dos Azarados. Isto será um prato cheio para nos aventurarmos, não é mesmo?
Desta vez, todos permaneceram em silêncio, deixando apenas o som da chuva cair os encobrir com o frio. O homem barbado entrou de uma vez na Dungeon desconhecida e o jovem continuou, seguindo para a entrada.
- Afinal, como dizem as lendas. Por onde este corvo voa, apenas morte e desgraça encontra...
* * *
Todos esperaram até o último aliado descer, pois separarem-se seria um grande incomodo. Devido a ser uma missão oficializada pela Guilda, eles precisam prestar contas sobre riquezas, criaturas e mortes vivenciadas no local. Principalmente em uma missão de reconhecimento, cuja finalidade principal é fornecer informações. Mas, no caso deste grupo em particular, é algo ainda mais necessário.
Aventureiros dificilmente visitam Dungeons sozinhos, até porque seria um suicídio lidar com tantas coisas sem apoio, e por isso formam Clãs. Um grupo de pessoas que se alia em busca de riquezas e se ajudam mutuamente. No entanto, este seria um obstáculo social para muitas pessoas que só querem matar por dinheiro, sem comando ou normas. Daí surgiram as Equipes Random, membros da guilda que escolhem missões em conjunto sem se conhecerem e mantém lanços de companheirismo apenas na dita missão. Esta foi a melhor escolha que poderia ter tomado nosso cavaleiro com elmo de corvo.
- Todos prontos? - Perguntou o homem com a tocha na mão, preparado para liderar o grupo.
A equipe assentiu, e o senhor de barba castanha, cujo codinome era Old Wall, iniciou a jornada. Ele portava um grande e pesado escudo na outra mão, da mesma cor que sua armadura púrpura, mas parecia não ser afetado por tamanho esforço. Logo atrás na fileira vinham os dois jovens, conhecidos apenas como Cain e Prinsbow. A garota de cabelos louros continuava a olhar para os arredores, com sua balestra já posicionada em mãos. Uma verdadeira vigia. Entretanto, tal visão era contrastada pela figura do garoto despreocupado ao seu lado.
Com uma certa distância dos outros, Corvinal caminhava ao lado da criança, portando a segunda tocha acesa pelo grupo. Logicamente seria melhor que todos portassem uma luz, assim teriam mais visão para relatar os ocorridos, mas em locais como este seria um luxo se privar de andar com uma arma preparada para o contra-ataque.
A estreita caverna abria caminhos estranhos e escuros, com algumas bifurcações para todos os lados. Old Wall parecia ser um veterano em se localizar, e rapidamente descobria qual era o melhor caminho a seguir. O padrão das rochas, a orientação do vento e o som são grandes aliados nesta arte perigosa, pois uma má escolha poderia os levar a morte certa.
- M-Me desculpe por antes... - Suspirou a menina, seu rosto era inalcançável pela luz.
O cavaleiro trajado de negro não deteve seus pés, mas olhou para a criança. Apesar de sua aparência e tudo aquilo que diziam sobre ele, Corvinal apenas se sentia mal por esta alma despreparada para a morte. Mas, mesmo que quisesse ajudá-la de algum modo, não sabia como. Ele pensou em reconfortá-la como o velho homem o fez, mas não seria esta uma possível mentira? Então o que poderia ele fazer?
Calmamente o Corvo se lembrou do que Leyla uma vez o disse “Distração é o melhor dos remédios do coração”. Obviamente, o homem não entendia tão bem o significado disso, mas compreendeu que talvez tudo que precisava era confortar a criança sem mentiras passageiras. Mesmo com tantas reflexões, os dois continuaram a caminhar, mesmo que suas distâncias parecessem aumentar pouco a pouco.
- Qual seu nome? - Indagou Corvinal, talvez com uma voz firme demais, como um pai repreendendo o filho.
- Eh? - Alarmou-se a criança que teve o rosto iluminado pela tocha.
Seu rosto era aparentemente frágil, com cabelos brancos e olhos azuis como um céu de verão. De certo modo, seria doloroso pensar que alguém assim estavam em um lugar tão perigoso, mas sendo assim, talvez ela tivesse algo de especial.
- Qual seu nome? - Repetiu o cavaleiro, ainda com o mesmo tom.
- Little Forest...
Para os aventureiros, seu nome era algo particular, até porque isto poderia expor sua família de alguma maneira. Por tais motivos, todos criam um codinome para utilizarem e desde então, revelar seu nome se tornou uma cultura de intimidade. Como se apenas alguém confiável poderia saber seu verdadeiro nome.
O Corvo logo entendeu que este era um apelido, mas se sentiu aliviado por ela não ser tão ingênua quanto parece.
- Hmm, entendo.
Apesar de sua grande vontade em ajudar, e forçar sua mente até o limite, Corvinal não conseguia pensar em mais nenhuma pergunta pertinente a se fazer. Quando proseava com Leyla, apenas ela falava e conduzia, então jamais imaginou que fosse tão difícil apenas conversar. Ele pensou em se apresentar, mas já haviam dito seu codinome anteriormente, limitando sua imaginação ao silêncio.
Little Forest parecia inquieta em relação ao estranho cavaleiro, mas também não teve coragem de indagar mais nada.
Os aventureiros chegaram a um corredor mais espaçoso, cujas paredes tinham manchas de sangue e algumas correntes penduradas. Haviam também alguns suportes para tochas, mesmo que não houvesse nenhuma lá, apenas teias de aranha.
- Este lugar fede... - Resmungou Prinsbow - Devem haver corpos por perto.
Depois de uma pequena descida, eles atravessaram uma passagem circular e adentraram um local diferente dos outros. Era uma sala, bem espaçosa, lotada de velhos caixões e pilastras de pedra.
- Uma catacumba. - Constatou Cain.
Mesmo ali, também haviam correntes e detalhes de ferro pelas paredes. Cain tentou empurrar a tampa de um dos caixões, era extremamente pesado, mas conseguiu com a ajuda de Old Wall. Os dois abriram alguns deles, para terem certeza de que não haviam tesouros escondidos. No entanto, tudo que encontraram foram esqueletos empoeirados e corpos em decomposição.
- Vocês realmente acharam que alguém esconderia algo aqui? Seria burrice demais, ainda estamos muito próximos da superfície - Esnobou a garota, levemente irritada em ficar tanto tempo atoa em um local tão fétido.
- Bem, você tem razão. Riquezas normalmente são guardadas na parte mais profunda de uma Dungeon - concordou Old, enquanto coçava sua barba.
- Mas é sempre bom verificarmos todo canto possível. - Retrucou Cain, incomodado com estes comentários - Afinal de contas, esta é uma Dungeon inexplorada. Se deixarmos algo de valor passar despercebido, será levado por um grupo mais inteligente.
- Concordo - Apoiou Corvinal, ainda verificando os corpos.
A garota deu de ombros e pôs-se a sair do local.
- Tsk! Façam como quiserem, mas já terminamos por aqui, então vamos.
Mesmo sendo discordante, Prinsbow tinha razão, não havia mais nada por ali então a equipe voltou a caminhar. A saída desta tumba os levava para um novo corredor, ainda mais largo que o anterior, mas por alguma razão, este se encontrava totalmente iluminado pelas tochas nas paredes. Isto significava que alguém estava próximo, seja humano ou não, e usava este local como moradia ou algo do genêro.
As dúvidas não detiveram os aventureiros, que caminhavam mais convictos de segurança devido a luminosidade. Todos podiam ver um grande portão de pedra no fim do longo corredor, como a entrada de algo importante. Havia um corpo sentado ao lado do portão, um belo sinal de boas vindas.
- Está abrindo! - Alertou Prinsbow, ao perceber algo no portão de pedra.
Ninguém duvidou da atiradora do grupo, sua visão certamente era a melhor dentre eles. E assim como ela dissera, ficou cada vez mais nítido os portões se abrindo lentamente. Sem qualquer comunicação, todos assumiram suas posições de acordo com seus estilos de combate.
A garota com a balestra foi para trás, junta de Little Forest. Corvinal tomou a dianteira, sua resistência parecia ser a mais poderosa da equipe, seguido de Old Wall com seu grande escudo e Cain empunhando seu sabre.
Luzes vermelhas brilharam da escuridão, habitavam orbes vazias em crânios desprovidos de carne. Incontáveis Undeads vieram detrás do portão, alguns pareciam Zumbis, mas em sua maioria se tratavam de Esqueletos. Grande parte destes inimigos portavam uma arma, havia um grupo na retaguarda com arcos apontados, como se fosse um ataque coordenado e não a mera fúria de monstros sem inteligência.
- Para trás!! - Gritaram Old Wall e Corvinal.
Old Wall protegeu o grupo das flechas com seu escudo, enquanto o Corvo avançou ignorando a onda de flechas. Sua armadura não era um mero enfeite, era perfeita para investir com tudo em ataques como este. Se ele não avançasse, o inimigo se aproveitaria da defesa deles para diminuir a distância de sua retaguarda. Com um poderoso cavaleiro frente à eles, os Undeads não poderiam ignorá-lo em busca dos outros que ficaram recuados.
Corvinal balançou sua pesada espada de duas mãos, e destruiu três esqueletos facilmente. Cain partiu em disparada, numa velocidade que logo alcançou seu companheiro, e rapidamente perfurou a carne morta de um inimigo.
Prinsbow iniciou seus disparos, mais do que simples pontaria, sua especialidade era a agilidade com as mãos em sempre sacar uma nova estaca, de modo que parecia atirar a cada três segundos sem interrupções. Old Wall decidiu permanecer próximo a retaguarda, para protegê-las, interceptando todos que passassem pela linha de frente e usando seu escudo para bloquear as saraivadas de flechas.
A pequena criança apenas assistia, não porque estava com medo, mas porque ainda não era sua hora de agir. Little Forest olhava para a batalha, segurando um objeto em sua mão, esperando sua oportunidade de atacar.
O Corvo era implacável, e os ataques adversários só conseguiam rasgar seu manto, o qual já havia se tornado um trapo velho. O cavaleiro, em meio ao combate, retirou aquele manto revelando sua intimidadora armadura de ébano. Um escudo nas costas, armas presas a cintura e uma bainha de couro negro. A imagem de um guerreiro de estirpe ou apenas um sobrevivente de desgraças, ninguém sabia responder, mas todos facilmente entenderam o significado de seu nome.
Corvinal, o único que retorna com vida do inferno, o azarado que condena a todos que caminham ao seu lado...


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