Capítulo 08
Fim. É assim que chamamos muitas coisas e denotamos certos ocorridos. Aproveitando-me desta palavra, acho que posso dizer que, este mundo não chegou ao fim.
O mundo não havia sido bombardeado ou atacado por aliens, e a humanidade também não tinha exatamente sido exterminada. Mas em contradição as minhas ridículas deduções, era certo dizer que o mundo estava perto do fim.
Mas ainda não era o fim.
Por que digo isso? Logo eu? Leslie Von Gardenni, uma medrosa que sempre teve medo de sair a noite, a covarde que se assustava com filmes baratos de terror?
A resposta era clara como o dia. Porque tudo mudou. Aquele a quem eu chamava de monstro, ele me mudou. E naquele momento, o que eu mais desejava era salvar o mundo, curando as anomalias e ressuscitando as vítimas inocentes desta tragédia. Mas... era apenas um desejo, que provavelmente nem um gênio seria capaz de realizar.
Após descobrir, através da anomalia, que todas as criaturas que caminhavam sobre a terra já foram seres humanos, eu comecei a buscar por pistas no celular, que a propósito me dera não sei porque. Ao verificar alguns blocos de notas, acreditando que encontraria um diário ou coisa do tipo, descobri que seu nome era Eugênio. Esta não foi uma informação propriamente relevante, mas me poupava do trabalho de lhe chamar por nomes esquisitos, mesmo que não me respondesse.
Desde aquele dia, passei a visitar Eugênio durante uma semana. E é claro, a fazer anotações sobre seu comportamento.
Querendo ou não, Eugênio estava em uma forma monstruosa, e isto parecia ser algo de longa data. Em outras palavras, seja lá o que foi que aconteceu a humanidade, foi a muito tempo. Mas o xis da questão não estava ali. Considerando que no dia 20 de Outubro de 2013 eu misteriosamente viajei no tempo, não seria loucura supor que algo ainda mais fictício, para transformar os seres humanos, aconteceu logo depois? Ou em uma data próxima?
Era nesta conclusão que eu havia chegado. Seja lá o que me fez ir para o futuro, foi a mesma causa da mutação humana em anomalias. Em 20 de Outubro alguma coisa aconteceu, algo que quase destruiu a vida na terra.
Eu caminhava por um rota que já tomava como habitual, da casa de Sônia para a sala de Eugênio na fábrica em que o encontrei pela primeira vez. Estava decidida a visitá-lo sempre, pois temia que sua parte humana desaparecesse... Sem contar, que em uma expedição pela fábrica acabei por encontrar um estoque de alimentos.
Retirei meu caderno de anotações do casaco e voltei a encara-lo, como se nele estivessem todas as minhas crenças, e estavam.
Estas eram apenas algumas deduções, mas até o momento, eram o mais próximo da verdade que eu havia chegado:
1 - Como a filha de Eugênio, aparentemente, morreu no dia da mutação e a quantidade de anomalias era extremamente pequena se comparada a quantos humanos existiam anteriormente, concluí que apenas alguns se transformaram em anomalias enquanto o restante veio a falecer.
2 - Devido ao fato das anomalias estarem nesta forma a muito tempo, a maioria deles assumiu uma personalidade selvagem. Depois de tanto tempo na forma de feras, comendo como feras, correndo como feras, eles passaram a acreditar que eram feras. Esta era a razão para alguns estarem tentando me matar. Ao contrário de Eugênio, que resistiu excepcionalmente, a parte humana das demais anomalias se extinguiu.
E este era o resumo de minhas convicções.
- É, olhando por quantidade, parece pouco - pensei em voz alta enquanto guardava o caderno - Mas definitivamente eu estou chegando perto da resposta, posso senti-la em minhas mãos.
Cerrei os punhos como um lutador de boxe, e cruzei um semáforo quebrado em uma faixa sem pedestres. Meu medo por aquela cidade morta tinha se desvanecido e, acredite ou não, a coragem transbordava de meu peito.
- Ah! - eu disse, ao me lembrar de outro detalhe importante, o qual não havia anotado.
Apesar de poder compreender minhas palavras, Eugênio era incapaz de escrever, como se já houvesse esquecido, e acreditava que era o mesmo com a fala. Devido a isso, nós só conseguíamos nos comunicar por meio de perguntas de sim ou não, o que cá pra nós já era muito para uma garota que estava solitária a tempos.
Voltei a caminhar pelas ruas desertas da cidade, ignorando os inúmeros sinais de arrombamento nas casas e lojas que obviamente eram obra de anomalias tão esfomeadas quanto eu. Cacos de vidro pela calçada, sangue seco por vários lugares, ao perceber que o meu estômago já estava começando a se embrulhar decidi me distrair. De meu outro bolso, peguei o celular de Eugênio, e em meus ouvidos coloquei o Headphone.
Talvez seja um pensamento estranho, mas não existe nada melhor do que colocar um fone de ouvido com o volume no máximo para ignorar o mundo e os problemas. Como se estivesse dando um dane-se a tudo que me incomodava, e a tudo que poderia acontecer, me pus a perambular pela cidade fantasma ouvindo um rock 'pauleira', egoisticamente fugindo do fato de que a bateria poderia acabar.
Com a batida da música, que contagiava todo o meu corpo e rendia-o ao seu ritmo, eu me esqueci das coisas ruins. Aliviada da tensão de estar sozinha e tudo mais. Pela primeira vez em quase 300 anos, eu me sentia completamente leve. Mas como se fosse um passatempo do mundo, o destino me pregou uma peça, me levando à um encontro que mudaria tudo para sempre.
Mas eu querendo ou não, aquele encontro já estava previsto desde o início, desde aquela ligação... no dia 20 de Outubro de 2013.
Meus olhos inicialmente não acreditaram no que viram, e mesmo após pressioná-los durante algum tempo, eu tive de tirar os fones e me esticar para me concentrar naquela imagem ao longe. Em uma rua, havia um garoto correndo!! Um garoto! Um humano!
- Não pode ser... - murmurei incrédula, ao confirmar com cada ângulo de minha visão de que era algo verídico.
Talvez por um reflexo, corri na direção do garoto como uma leoa atrás de uma gazela. Antes que eu pudesse perder o fôlego, gritei pelo jovem. A pessoa olhou bem nos meus olhos por um instante, e após dar um escancarado sorriso, voltou a correr, ainda mais depressa.
Fiquei com muita raiva.
- Volta aqui seu filho da mãe!! - berrei, embalando o meu corpo como um trem-bala em uma estação japonesa.
Corri tanto que as imagens já estavam borradas ao meu ver, e cheguei até a ver algumas aves voarem assustadas. Mas o garoto era rápido, mesmo estando com um grosso casaco preto. Aliás, toda a sua roupa era da cor preta, como um agente funerário ou um gótico. A perseguição durou uns dez minutos no mínimo, pulamos destroços, pisamos em poças, adentramos becos esquisitos, desgastamos todas as forças de nossos corpos até não aguentarmos mais.
No entanto, como já era de se esperar, antes que ele pudesse parar para descansar, eu consegui o alcançar em uma travessia. Vendo que ele ainda não havia olhado para trás, para confirmar a minha presença, eu saltei sobre o garoto. Usando toda a minha força (não o meu peso!) eu derrubei o sujeito, que imediatamente foi lançado ao chão. Permaneci em cima dele, com as mãos apoiadas no chão, tendo sua cabeça no centro, para evitar que escapasse.
Pensei que ouviria um pedido de piedade vindo do fujão, mas ao contrário disso, ele sorriu.
- Me pegou! - disse o garoto entre risadas e suspiros, com o rosto cheio de suor - Você... é realmente... boa...
- Não me vem com essa! - gritei bem na sua fuça, já perdendo as estribeiras.
Aquele idiota poderia muito bem ter parado e me ouvido desde o início, mas como uma criança, ele fez disso um jogo de pique-pega. Estava querendo me fazer de trouxa?
- Escuta aqui, eu quero saber que----------------------!
Antes que eu pudesse completar a minha frase cheia de ódio, alguém me nocauteou certeiramente. O soco foi tão forte que quase fui parar na calçada. Deitada no asfalto, com o rosto doendo, eu olhei para a nova silhueta que surgira diante de mim. Era uma garota, um pouco menor que o idiota, usando um vestido negro, ainda com o punho erguido.
- Tire as mãos do meu irmão!! - gritou a menina imersa em fúria.
Queria levantar e dar uma surra naquela menina, apesar de sua fofa aparência, mas estava arrebentada e exausta demais para isso. E pra piorar, a única coisa que fui capaz de perguntar foi:
- Quem são vocês...?
Não sei exatamente se foi por causa do soco ou da exaustão, mas eu desmaiei pouco depois daquilo. Mas antes que isto se concretizasse, eu fui capaz de ver o garoto se levantar, junto aos paparicos de sua irmã e os xingamentos dirigidos a mim, e me responder com seu sorriso irritante.
- Ora, você ainda não percebeu? - o garoto se pôs de pé, junto a sua irmã, e com os braços abertos completou - Nós somos como você. Nós somos INCÓGNITAS.


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